Clínica Paparella


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Textos

Surdez, Aparelhos de Audição e Preconceito

Quando Herbert Vianna compôs seu primeiro grande sucesso “Óculos”, ele fazia alusão a alguém que usava óculos para fazer charme de intelectual. Já foi o tempo em que “quatro olhos” era o apelido dado para se zombar de quem usava óculos. E, em relação ao aparelho de audição, há algum charme em usá-lo? Ou somente preconceito?

 

Não acredito que hoje ainda haja alguma pessoa que se negue a usar óculos por constrangimento ou vergonha, além do mais, o deficiente visual, principalmente a pessoa cega, inspira compaixão, solidariedade e outros nobres sentimentos humanos. E o surdo? Este é muitas vezes motivo de chacota, se for idoso ele já ganha o estigma da figura da velhinha da “praça da alegria”, aquela que entende as coisas tudo errado!

 

Tentar comunicar-se no dia-a-dia com uma pessoa idosa deficiente auditiva é tarefa árdua, que demanda energia e principalmente muita paciência. O idoso ensurdecido se sente um estorvo. Ele tem que ouvir a TV com volume muito alto atrapalhando o resto da família, ele não consegue se comunicar com amigos e familiares e o que lhe resta é o isolamento. Daí ele se deprime e experimenta um final de vida bastante infeliz. Estima-se que 70% das pessoas da terceira idade (mais do que 65 anos) têm algum déficit auditivo, o que representa em torno de 12 milhões de pessoas em no nosso país. Destas, pelo menos 7 milhões poderiam se beneficiar e muito com o uso de aparelho de audição, mas não o fazem por puro preconceito e desinformação, mantendo-se a margem do convívio social.

 

Hoje em dia, os aparelhos de audição são miniaturizados e colocados dentro do canal do ouvido, tornando-se praticamente invisíveis, não ofendendo dessa forma a estética e a vaidade da pessoa, além de disponibilizar um som amplificado da mais pura qualidade através de tecnologia digital. Usar essas próteses em nada diminui a pessoa, muito pelo contrário, resgata a sua auto-estima, devolvendo-lhe o bem precioso de ouvir melhorando sua qualidade de vida.

 

A surdez é o defeito congênito mais prevalente entre seres humanos. Estima-se que de 3 a 5 em 1000 crianças nascem surdas. Quando o recém nascido, por apresentar complicações logo após o nascimento, passa por uma internação em uma unidade de terapia intensiva, este número cresce muito: 2 a 4 crianças em cada 100 vão apresentar algum déficit de audição. Trata-se de incidência bastante expressiva. Se sua surdez não for diagnosticada dentro dos primeiros seis meses de vida, uma tragédia pessoal se instala em sua vida. Esta criança não vai desenvolver a fala, vai encontrar sérias dificuldades em adquirir conhecimentos, em se alfabetizar e, com raríssimas exceções, vai conseguir desenvolver suas potencialidades vocacionais. Ela não vai poder desfrutar do exercício pleno da cidadania, tornando-se muitas vezes prisioneira do pequeno mundo da comunicação gestual. Tudo isto poderia ser evitado se ela fosse submetida a um procedimento muito simples: o teste da orelhinha (triagem auditiva neonatal), que em muitos municípios deste país já é obrigatório por lei, mas infelizmente não realizado. Este simples teste poderia lhe proporcionar o diagnóstico e tratamento precoce de tão perversa privação sensorial.

 

Um país do primeiro mundo não é aquele que somente detém tecnologia de ponta, mas sim aquele que disponibiliza estes avanços da ciência para sua população. No Brasil há centenas de otorrinolaringologistas espalhados pelo seu vasto território que disponibilizam o teste da orelhinha para sua comunidade. O problema é que, por pura desinformação, as pessoas não procuram estes médicos para a realização do exame da audição (que pode ser feito ainda no berçário) em seus recém nascidos, evitando assim que uma mãe leve da maternidade em seus braços uma criança surda.

 

O teste do pezinho que se constitui de procedimento de rotina, sendo obrigatório em nosso país, procura detectar doenças congênitas graves, como a fenilcetonuria e o hipotireoidismo em 1 a cada 10 mil crianças nascidas. Nesse contingente de recém nascidos estaríamos detectando entre 30 a 50 crianças surdas. Por que então não tornamos também obrigatório o teste da audição, logo após o nascimento em todos os recém nascidos do país? 

 

Outro fato de extrema relevância relacionado ao sentido da audição é o ruído de fundo. Aquele som do meio ambiente, que muitas vezes a gente nem se dá conta que está ouvindo. Este som é de grande importância, pois ele pode ser extremamente irritante, o que nos motiva a abandonar aquele espaço ou pode significar uma experiência extremamente prazerosa e confortante, podendo nos trazer muita paz, como é o caso do barulho das ondas do mar, de uma cachoeira ou do barulho da chuva caindo de madrugada sobre nosso telhado.

 

Um relato de um idoso, que por longos anos amargurou uma deficiência auditiva severa, me chamou a atenção, ele contou que adormeceu assistindo a TV usando seus aparelhos de audição em ambos ouvidos e foi despertado pelo aconchegante ruído da chuva, do qual ele nem se lembrava mais.

 

O ruído de fundo nos desenha a textura sonora do ambiente, o que nos proporciona inserir adequadamente no contexto. Quem já experimentou um entardecer no Pantanal, quando as aves voltam para os ninhais sabe que o melhor a fazer nesse momento é fechar bem os olhos e se envolver única e exclusivamente naquela exuberante experiência auditiva, nesta ocasião, o ruído de fundo toma ares de fascinação.

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